
Tá pensando que engana quem?
Em ano eleitoral, proliferam na web textos sobre o uso inédito da internet em eleições no Brasil. Análises, profecias e estudos para esmiuçar as estratégias de comunicação dos candidatos e compreender como é a relação “do político”¹ com o eleitor. Nesse raciocínio, é praticamente inevitável falar de Barack Obama, o case absoluto de sucesso. Foram 500 milhões de dólares arrecadados online, o que corresponde a dois terços da verba de campanha dele. A mobilização gerada com vídeos no YouTube e com a rede My.BarackObama.Com, a contribuição dos eleitores na produção de conteúdo e compartilhamento de informações dentro e fora da web, essas ações nunca foram tão expressivas, não se esperava um retorno tão grande — lembrando que nos EUA o voto é facultativo.
O ponto é que o sucesso da campanha de Obama não se deve somente à internet. A proposta de governo, a possibilidade de se tornar o primeiro presidente negro na história dos EUA, o carisma e a oratória poderosa de Obama contribuíram fortemente. É um apelo que nenhum dos candidatos à presidência do Brasil têm atualmente. E mesmo que tivesse, o trunfo da campanha jamais estaria na internet. Isso porque menos da metade da população brasileira tem acesso à internet segundo dados do IBGE.
Mesmo assim, os candidatos estão investindo maciçamente na web. Site turbinado, canal no YouTube, perfil/comunidade no Orkut, conta no Twitter. Tudo operado por assessores que não dão a mínima para o aspecto mais fundamental das mídias sociais: a interação. É uma coisa meio louca se você for analisar a situação. As assessorias criam contas, perfis e páginas nos serviços com o pretexto de se aproximar do eleitor, mas ignoram replies e comentários.
Em maio, Cláudio Torres, especialista em marketing político digital, fez um teste simples para saber se os candidatos à presidência da República José Serra, Marina Silva e Dilma Rousseff eram realmente tuiteiros. É bem oportuno destacar o resultado:
Uma maratona de mais de 16 horas no Twitter mostrou que, dos três pré-candidatos, a maioria usa perfis no Twitter para enviar informações sobre suas campanhas, mas ignoram por completo questionamentos dos Internautas que usam a ferramenta. Só Serra realmente respondeu.
Acompanhei a experiência do Torres desde o início e já esperava por isso. É ridículo ver como os candidatos, que tanto fazem pose de “quero me aproximar do eleitor”, cometem um erro tão primário como esse. Há quem ache que a culpa não é do político, mas da empresa de comunicação responsável pela campanha. Pra mim, a agência tem uma parcela de culpa, mas o candidato também não é santo, pois na hora de dizer que tem blog, tem Twitter, ele espalha aos quatro ventos, mas na hora de “assumir a paternidade”, esquiva-se.
As mídias sociais deveriam ser o “novo corpo a corpo” das eleições, mas o que se vê é o cúmulo da hipocrisia e da estupidez. É normal ter uma assessoria responsável pela comunicação da campanha, só que isso deveria ficar claro ao eleitor. Agora, imagine você, se o candidato já mente numa situação relativamente simples como essa, o que esperar dele em cargo político?