A Beija-Flor e os 50 anos de Brasília

Só tem uma coisa que eu adoro no Carnaval: o feriado. Desfiles de escola de samba, blocos carnavalescos, samba, frevo, trio elétrico, camarote de celebridade… tô dispensando. Infelizmente, é só no meu mundinho particular que o Carnaval não existe. Ainda bem, pois assim não tenho um surto psicótico com a overdose de “melhores momentos” que abrem, fecham e preenchem todo o noticiário nessa época.

Hoje tinha tudo para ser igual. Acordei às 7h30 da manhã e liguei a TV no Bom Dia Brasil, da Rede Globo. Pausa para esclarecer: esse é o único noticiário verdadeiramente matinal da tevê aberta. Depois de 8h da manhã não é jornal matinal, ok? Bem, voltemos ao ponto. Estava tudo igual: melhores momentos dos desfiles da noite anterior e entrevista no estúdio com os carnavalescos das escolas mais cotadas a levar o título de campeã.

Aí vem o padrão Globo de parcialidade: 4 convidados, sendo dois representantes da Beija-Flor, um da Unidos da Tijuca e um do Salgueiro. Os entrevistados eram os carnavalescos responsáveis pelos enredos de cada escola… e o Neguinho da Beija-Flor. Ok, não vou perder tempo com o posicionamento descarado de uma emissora privada, nem com o Nigga Hummingbird. O melhor vem agora!

O jornalista Marcos Uchôa guiava a entrevista. Ele abriu com perguntas sobre o enredo de cada escola. O enredo da Beija-Flor homenageava os 50 anos de Brasília. Com os constantes escândalos que assolam a capital, a expectativa era que a escola de Nilópolis retratasse essa situação lamentável, fizesse uma crítica, mas não foi o que aconteceu. Mostraram Brasília como uma cidade. Mostraram a arquitetura, contaram a história da criação da capital federal, lembraram de JK, montaram uma alegoria sobre o cerrado.

E lá foi o Uchôa perguntar por que eles não falaram da política. É óbvio que essa pergunta tinha que ser feita, mas não precisava ser estupidamente sutil: (voltas e voltas sobre Brasília ser a sede da política nacional) você não acha que podia ter assim, um pouquinho sobre os problemas da política? Sério, gente, ele fez a pergunta num tom explicitamente de “não quero ofender”. Oras, ou você age como um jornalista, ou como empregado da Globo, porque os dois não dá, não!!

Alexandre Louzada, o carnavalesco responsável pelo enredo, respondeu na maior calma: Os problemas de corrupção não estão em Brasília, eles vêm pra Brasília. Não é uma coisa que nasceu ali. OBRIGADA, MEU DEUS! É claro que existe corrupção em Brasília (vide Arruda, Paulo Octávio, Roriz…), mas a corrupção do Congresso não é brasiliense. Parece óbvio, mas o brasileiro que não vive na capital não vê essa diferença. Pra ele, Brasília = roubalheira.

Uchôa: mesmo assim, você não acha que faltou uma crítica a esse respeito?

Louzada: Olha, o enredo é em homenagem aos 50 anos de Brasília. Você não comemora o aniversário de alguém criticando ou falando mal da pessoa, não é?

OUCH!

Eu pulei da cama quando ouvi isso! O carnavalesco manteve a calma, falou pausadamente (isso me levou a pensar que ele estava com sono), não alterou a voz nem demonstrou irritação ou constrangimento com as perguntas. O jornalista resolveu seguir a entrevista com os outros representantes, talvez por cogitar levar um terceiro fora se continuasse, talvez por causa do tempo curto do telejornal, vai saber. Na minha opinião, o Alexandre Louzada argumentou bem, mas será que o fato de a Beija-Flor ter recebido 3 milhões de reais do Governo do Distrito Federal não interferiu? Ou o GDF aceitaria patrocinar um enredo que fizesse ironias com panotenones e dinheiro nas meias?

Pra quem não é de Brasília, esse assunto pode não interessar, mas pra quem vive aqui isso incomoda bastante. Quem é “de fora” não percebe a diferença entre a política do DF e a política nacional, dos senadores e deputados federais. Por quê? Porque poucos brasileiros entendem nem querem saber de política. Percebemos isso quando fazemos a clássica pergunta em quem você votou nas últimas eleições?, ou quando testamos a “opinião pública” perguntando você sabe quem é José Sarney?. Edmar Moreira, deputado do castelo, é de Minas Gerais; Renan Calheiros, que usava notas fiscais frias para comprovar rendimentos, é senador de Alagoas… Lembre disso quando falar que “em Brasília só tem corrupto”.

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8 comentários sobre “A Beija-Flor e os 50 anos de Brasília

  1. realmente o pior são “os melhores momentos”
    hauehaueha eu gostei da salgueiro. assunto bem diferente: Livros. Pena que tava “quase atravessando a fronteira ” comod iz meu irmão..quer dizer estava quase dormindo!
    huhuhauehuhe Num vi quase nada da escola, basicamente só o carro abre alaas.
    E o tema da beija flor achei tosco.. foi o mesmo dlaguma escola dde SP. então mais criatividade seria legal.
    E sobre esses dois foras seguidos, eu pulei da cadeira aqui hein! hahahauhuaa eu teria choradose fosse o reporter. E é verdade muita gente confunde Brasilia com “politica”
    E ao invez d falar ” na politica só existe corrupto” diz “em Brasilia só existe corrupto” e acaba ligando diretamente roubos com o lugar..Mas isso também vai da propria midia que so põe reportagens sobre Brasilia quando se trata desse crimes..acredito que o”Globo Reporter” que só fala de obesidade e áfrica poderia se prontificar a falar sobre a verdadeira Brasilia e seus 50 anos e deixar um pouco esses escandalos de lado.

  2. Ahh, carnaval pra mim é que nem você disse: de bom só tem o feriado! O resto…
    Nem liguei a TV pra ver nenhum desfile (se já não ligo a TV normalmente, imagina pra ver Carnaval…)
    Hahaha, gostei das respostas do cara. Mas eu nunca pensei muito a respeito disso, mas também nunca pensei que Brasília era a “culpada”. Acho que as vezes é falado como se em Brasília estivesse os problemas, mas é só uma forma de se referir ao governo brasileiro, à Brasília como capital do Brasil, e não Brasília como cidade à parte, pq as pesoas as vezes acabam esquecendo que Brasília também é uma cidade com um governo e etc.
    Mas um dos fatos das pessoas não ligarem pra política, é pq as vezes, por exemplo, na hora de votar, não tem um candidato que preste que acaba votando em um “qualquer” ou menos pior. Mas por que os candidatos são ruins? Pq o povo não se pronuncia também. Então… parece que estamos meio perdidos…
    (Não sei se o que falei fez muito sentido no fim! hauahua)

  3. PS.: Respondendo ao seu comentário no meu blog (não tenho como responer por lá, pq acho que o blogger não tem essa opção… ainda sou uma blogueira muito amadora pra usar o wordpress :P): Da avaliação lá por estado, Brasília/DF era o que a porcentagem de pessoas preocupadas foi a menor dos estados… Mas o exemplo que vc deu, é impressionante a falta de interesse das pessoas…
    E obrigada pelo comentário.

  4. Tenho um enorme prazer em ver que um entrevistado conseguiu expor seu ponto de vista apesar do entrevistador que tenta colocar um viés alheio ao contexto.

    Gostei muito do seu espaço aqui.

    Abraço,

    1. É comum ver jornalistas tentando intimidar o entrevistado. Gosto de ver quando este consegue responder à altura, diretamente e sem agredir o repórter.
      Obrigada pela visita! =)

  5. Não vi, mas uma salva de palmas para esse carnavalesco que não perdeu o rebolado na hora de perder e ainda deu uma resposta de classe.
    Você tem razão de fazer um post assim, às vezes a gente esquece dessas coisas mesmo; desculpe! :)
    Bjitos!

  6. É como tu disse, a vagabundagem não É de Brasília, ela ESTÁ em Brásilia. É diferente. O povo adora criticar tudo, mas na hora de votar vai lá e pimba, só faz merda. Eles mesmos elegem os corruptos de outras eleições. Quem faz a corrupção é o próprio povo que não sabe votar. Não é desculpa dizer que é ignorante, que NÃO SABE, pq todo mundo tem tv, e quem não tem ou não vê escuta de boca alheia as corrupções e etc. Mas… Brasilsão melão só quer saber de putaria, futebol… Depois gringo fala que isso aqui é um bordel eles reclamam! Mas gringo se ligasse a tv semana passada ia ver o quê? Não ia ver as pessoas decentes, nem os trabalhadores nem beleza natual nem nada. Ia ver um monte de bêbados, pelados, sacudindo as pelancas #revolta
    xOxo :*

  7. (teclado sem acentos =/)

    pra mim, Brasilia nao significa corrupcao… na verdade sou bem desiludida, politico e corrupto sao quase sinonimos..

    a Marina Silva, bem, acho que eh por isso que vou votar nela, por ser uma das unicas honestas – ou que parece ser, nao consigo confiar demais, pra nao me sentir traida mais tarde.

    mas pensando bem, eh verdade, nas ‘Vejas’ da vida, Brasilia sempre vem lado a lado com corrupcao. Entendo perfeitamente pq o povo da cidade se incomoda.

    Tbm nao gosto das festas de carnaval, mas achei o post bem interessante.

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