Vontade de sumir

Passei uma semana fora para participar de um evento sobre mídias sociais em São Paulo. Nesse tempo, meus pais tiveram de arranjar um jeito de conviver. A palavra é bem essa. Meus pais não vivem juntos, um não faz questão do outro, então eles convivem (a contragosto mútuo) na mesma casa.

Quando voltei a Brasília, no sábado à noite, minha mãe me recebeu bem no aeroporto. Depois de contar dos problemas no voo de volta, perguntei: “e as coisas em casa, como estão?”. Ouvi as reclamações, que poderiam ser resumidas a “ele está insuportável”. Não estava em casa para saber, mas meu pai sabe como incomodar e irritar alguém. Em se tratando da minha mãe, essa capacidade quadruplica.

Eu não havia notado nada de diferente na expressão dela, mas no domingo reparei que alguma coisa mudou ou está mudando. Minha mãe não quis saber os detalhes da viagem, o que fiz ou deixei de fazer em São Paulo, como foi o evento. Ficou na dela. Inicialmente, isso me irritou bastante. Parecia que estava em casa com uma completa estranha. Estranha e mal-humorada. Por diversas vezes perguntei o que estava acontecendo. “Estou de saco cheio, já não aguento mais”, respondia, irritada e de cara amarrada. Só que ela não me dava detalhes.

Minha irritação com essa situação agora se mistura à tristeza. Voltei de viagem e ainda não encontrei a mãe amiga que me deixou no aeroporto chorando porque ia ficar com saudades da filha. Encontrei uma mulher ausente e amargurada que não quer conversa e fica o tempo todo com fones de ouvido. O presente que trouxe de São Paulo para ela foi deixado de lado.

Algumas semanas antes da viagem, descobri que minha mãe havia voltado a fazer terapia. Sinal amarelo. A depressão pode estar voltando. Depois da semana que passei fora, acho que a doença já voltou, mas diferente. Em vez da tristeza, o mau humor. O comportamento de “que se dane, não estou nem aí pra nada” é evidente.

Minha vontade é sumir. Nunca tive uma situação familiar estável. Pais que se odeiam, um cara que acha que manda na casa, uma mulher que simplesmente ignora tudo, uma casa que reflete o descaso. E eu. Sem privacidade, sem espaço, cansada de sempre estar no meio do conflito.

Não vejo luz no fim do túnel. Na verdade, nem fim vejo nesse túnel. Não sei como essa situação vai terminar e isso me dá medo. Não quero resolver nada, não quero desfazer minha mala. Eu quero fugir. Minha vontade é sumir.

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4 comentários sobre “Vontade de sumir

  1. Bruno Fortinho Guimarães

    É, família é isso mesmo. Ainda não encontrei uma família que não tenha problemas críticos. Mesmo aquela família que parece perfeita de longe e a qual nunca vimos uma briga ou cara feia tem problemas, as vezes até piores.
    Mas tem algo que sempre observei, inclusive eu diria que é o meu caso, pessoas com famílias complicadas tem uma grande tendência a se destacar. Não sei se é a necessidade de focar em algo produtivo para esquecer os problemas, ou se é a vontade de vencer na vida e não repetir o erro dos familiares. Olhe para você: poliglota, autodidata, praticamente formada. Quantas pessoas você conhece que tem uma família estruturada e mal sabem escrever português?
    Me parece que quanto mais dificuldade temos na vida, mais nos esforçamos. Já que não existe zona de conforto, estamos sempre em movimento tentando alcançá-la.
    Será que ser uma pessoa medíocre em uma família feliz pode trazer mais felicidade? Isso é algo muito pessoal.
    Não desanime, todo o esforço mais cedo ou mais tarde é recompensado. Todas as dificuldades que você passar agora vão te trazer maturidade, e essa maturidade precoce vai lhe preparar para lidar com os problemas futuros com muito mais facilidade do que as outras pessoas. Temos que aprender com os erros dos nosso pais, crescer com eles. No futuro pais desestruturados precisarão mais dos filhos que os filhos precisaram deles. Esse meu comentário está parecendo livro de auto ajuda, mas espero que de alguma forma sirva nesse momento de dificuldade. Eu sei bem como é a situação pela qual está passando.

    1. Muuuito obrigada pelas palavras, Bruno. São mais valiosas que toda a coleção do Augusto Cury! :D

      Nunca tinha parado pra pensar nisso… realmente, sempre me refugiei nos livros, no computador, etc. Que bom, algo positivo no meio desse caos todo. O problema é quando afeta o psicológico de uma forma que você não consegue se concentrar em nada porque aquela chateação fica martelando na cabeça, deixando um nó na garganta.
      Já conheci famílias em que os problemas eram passageiros, não constantes. Sabe quando toda a família resolve viajar pra algum lugar? A única vez em que isso aconteceu na minha família foi há quase 15 anos, eu era bem criança. Nem sair pra almoçar dá certo, porque uma hora meus pais vão entrar em conflito e vai sair briga. =/

      Eu procuro não ficar comparando, porque se for assim vou me lamentar por não ter sido adotada pela Angelina Jolie. Tento, como você falou, focar em coisas mais produtivas, pois isso é o que vai melhorar minha vida. :)

      Bjinho!

  2. Mari

    olá!!
    eu entendo muito bem pelo que vc está passando. meus pais se separaram quando eu tia 5/6 anos e o meu irmão, três. eles se odeiam, não conseguem falar no telefone sem brigar. minha mãe sempre falou coisas horríveis a respeito do nosso pai pro meu irmão e eu, ela não perdia uma oportunidade. nos últimos anos isso melhorou, mas costumava ser muito ruim… já nosso pai raramente reclamava dela, e quando o fazia não se comparava às coisas que ela dizia dele. acho que é questão de maturidade, não importa o que tenha se passado entre eles, é óbvio que eu e o meu irmão não queremos ficar escutando coisas desagradáveis sobre nossos pais…

    tbm nunca tive uma relação familiar estável… tenho problemas com a minha mãe, que acho que nunca serão resolvidos, pq já passamos por tanta coisa. meu pai e eu não somos próximos. detesto meu irmão (o sentimento é recíproco) e acredito que nunca vou gostar do meu padrasto – como as coisas mudam, no começo eu o adorava, mas depois de ver quem ele realmente é…
    enfim…

    acho que tudo melhora quando saímos de casa. as relações com todo mundo… quando vc não é forçada a conviver com pessoas que não se dão bem, com quem vc não se dá bem.
    o que eu não daria pra conseguir sustentar a mim mesma desde já.
    por isso me irrita quando dizem que dinheiro não traz felicidade… então tá, mas ninguém pode negar que deixa as coisas bem mais simples

    1. Oi, Mari!
      Eu também tenho essa visão. Adoro quando viajo sozinha, porque me viro superbem e é ótimo poder voltar para casa (no caso, o hotel) sabendo que não vai ter gritaria, nem discussão, nem implicâncias. Mal posso esperar pra conseguir me estabilizar financeiramente e poder fazer meu pé de meia, encontrar um apartamento pra chamar de meu cantinho, essas coisas.
      E se dinheiro não traz felicidade, chega beeem perto disso hehe :P

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