Hashtag não faz revolução

As pessoas só sabem se mobilizar por uma hashtag,
não por uma ideia. @tatianatenuto

Depois desse tuíte, vim pro blog. Essa discussão extrapola 140 caracteres.

Nos últimos meses, tenho visto uma sucessão de hashtags que simbolizam protestos variados. #forabolsonaro, #combustivelmaisbaratoja, #julgamentomensalaoja… Hashtags que sobem para os Trending Topics, ganham seus 30 segundinhos na televisão e… ficam por isso mesmo. O Bolsonaro, assim como o Sarney, continua no Congresso. O preço do combustível já subiu meia dúzia de centavos de novo e o julgamento do mensalão continua empoeirando no Supremo.

Peças da polêmica coleção da Arezzo


Ao ler as mensagens deixadas no Twitter e no Facebook, o que a gente tira
de crítica útil é muito pouco.
Anderson Birman, Presidente da Arezzo.

No início da semana, a Arezzo lançou a coleção Pelemania, com peças feitas de pele de coelho e raposa. Muita gente xingou muito no Twitter e #Arezzo foi parar nos Trending Topics. No Facebook, a página da marca foi inundada por mensagens negativas. Resultado: a empresa lançou um comunicado em seu site oficial para esclarecer que os produtos feitos com peles foram retirados das lojas, em respeito aos consumidores contrários ao uso de peles. A frase destacada acima foi a que mais chamou minha atenção na entrevista que o presidente da Arezzo, Anderson Birman, deu ao iG Moda para explicar a situação. Foi ela que me despertou a escrever este post.

Segundo Birman, a maioria dos comentários publicados no Twitter e no Facebook é “agressão e parcialidade”. Que as mensagens sejam parciais é compreensível (e óbvio), pois as pessoas estão expondo opiniões. No entanto, as discussões não evoluem. O presidente da Arezzo levantou questões bastante relevantes, como o impacto ambiental da produção de peles naturais e sintéticas, o aproveitamento de materiais na cadeia de produção, etc. Não se viu nada disso “na mídia“, como gostam de cuspir por aí. Claro, porque rede social é aquela coisa de momento, então faz aí a notícia em cima do factual e vamos em frente.

Meu objetivo neste post não é discutir sobre consumo de peles, fazer uma análise sobre o “case Arezzo”, nem promover reflexão sobre cobertura jornalística. O que quero mostrar é como os brasileiros estão acomodados. Temos um exército de revolucionários de sofá, armados com teclados, promovendo protestinhos na internet.

Quantas hashtags saíram do mundo virtual e fizeram a diferença em alguma coisa? Como disse no início do post, Bolsonaro continua no Congresso, Sarney também, e a gasolina já está na casa dos R$ 3,00. Acontece um protesto diferente quase todo dia e as coisas continuam do mesmo jeito. Hashtags sobem e descem nos Trending Topics e a vida segue.

Casos como o da Arezzo não podem iludir. Assim como nos casos da Brastemp e da Renault, a solução foi pontual. As redes sociais são ótimas ferramentas para repercutir uma ideia, mas, para provocar uma mudança real, é preciso ir além da tela. Tem de reclamar na ouvidoria, ligar pro órgão competente, registrar protocolo de atendimento uma, duas, dez vezes, pois o Brasil só funciona na base da insistência – leia-se: encher o saco.

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6 comentários sobre “Hashtag não faz revolução

  1. Pingback: Hashtag não faz revolução « Fora de Controle | Follow News

  2. Não há como discordar de vc. Mas temos de admitir uma coisa: as redes sociais realmente repercutem ideias, que normalmente poderiam ficar às escuras. Atrevo-me a dizer que com ou sem internet somos acomodados. Mas com a internet temos mais opções: assinar petições facilmente (coisa que tem ajudado pra algumas coisas, mas não todas), organizar movimentos e tal. Obviamente que pode ser que muitos acabem se sentindo satisfeitos só com as petições e críticas nas redes sociais e achar que já fez tudo o que podia (ilusão essa que antes não era tão possível).
    Mas acho que no fim, o saldo é positivo!

    1. É justamente esse o ponto, Aline. Nas redes, o pessoal é engajado, faz petição, etc. Tudo o que estiver ao alcance de um clique, a pessoa fará. Agora, quando a coisa for se reunir para fazer um movimento, por exemplo, a participação cai drasticamente. A situação que melhor ilustra isso é o protesto do #combustivelmaisbaratoja. Foi um fiasco, simplesmente porque o protesto só existiu no Twitter (e convenhamos, nossa população não é digitalmente incluída, então o Brasil não está no Twitter). Por que não fechar uma avenida de grande movimento? Por que não fazer barulho em frente ao palácio do governo? Ou convocar um dia de boicote?
      Sua observação é muito pertinente. Com certeza as redes sociais estão ajudando a disseminar as causas, mas é preciso um pouco mais de engajamento para que elas saiam do mundo das bits e passe a pertencer à vida da gente. Muito obrigada pelo comentário :D

  3. no stress

    Incrível essa perspectiva de realidade, é isso mesmo que acontece na maioria das vezes (eu também nem sempre tenho coragem de meter a cara).
    Mas teve um exemplo contrário em Salvador, no início do ano, férias escolares.
    Salvador ficou conhecida do Brasil quando entre 2003 e 2007 sempre havia passeatas estudantis contra aumento da passagem de ônibus. A cidade parava, e muitas vezes parou em jornais de nível nacional. Pois bem; a prefeitura e o sindicato de empresas aprenderam a homologar aumentos durante as férias natalinas, sem aviso prévio, o cidadão tava tranquilo, e quando chegava a segunda feira, olha a passagem 20cent. mais cara!
    Então, no início desse ano, férias, uma manifestação conseguiu juntar se não me engano 900 estudantes que pararam a principal via de Salvador cerca de 5 horas, e essa manifestação foi bolada através das redes sociais. Infelizmente pela falta de estrutura o movimento enfraqueceu e a passagem não diminuiu, mas o movimento mostrou que é possível se organizar via internet. falta aperfeiçoar isso aí.

    Parabéns ao blog

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