Mãe que o dinheiro não compra

Minha mãe e eu passamos o último sábado (10/5) expurgando tralha de uma quitinete utilizada para guardar coisas que queríamos guardar mas não tínhamos espaço em casa. Oi? Isso mesmo. É algo que começou com meu pai. Para não ocupar espaço em casa, lá ele guardava papéis que “eram importantes” mas ele não mexia com frequência, revistas que ele não lia (mas dizia que uma hora ia ler) ou as que ele queria guardar porque eram interessantes. Mamãe e eu levamos pra lá material escolar (livros, apostilas, cadernos) e livros de estudo. Quanto? Bom, digamos que terminei a faculdade há três anos e lá ainda estão meus livros da 5ª série do ensino fundamental – e tudo o que vem depois disso. É, esse tanto. E do meu irmão também. Oh yeah.

Enfim, passamos a manhã fazendo a limpa em armários e sacolas. Muito mais do que “isso vai, isso fica”, aquilo foi um bom exercício de memória. Minha mãe deu muitas gargalhadas com o que achou: material de quando ela era professora (antes dos filhos), cartinhas e bilhetes dos alunos dela, nossos trabalhinhos dos primeiros anos escolares. Fazia algum tempo que não via um sorriso gostoso no rosto da minha mãe, com brilho nos olhos. Cada coisa que ela pegava era um resgate – para nós duas. Enquanto ela lembrava de mim e do meu irmão no jardim de infância e nas primeiras séries, eu recordava o quanto ela se dedicou aos filhos.

Mamãe nunca largou nossa educação nas mãos das boas escolas que meu pai pagava. Ela sempre acompanhava nosso desempenho, dava uma olhada nos cadernos, etc. Lembro quando mudei de escola, na 2ª série, porque a professora não corrigiu quando escrevi “caza” em um exercício. Disse que era para “não traumatizar” e que eu “descobriria mais tarde a grafia correta”. Minha mãe discordou e fui para uma escola que traumatizava corrigia os alunos (e saí de lá sem sequelas).

Uma das lembranças mais gostosas que tenho era quando mamãe ia me buscar na escola a pé. Eu devia estar na quinta ou sexta série, era quando eu estudava à tarde. Ela levava um casaco de moletom pra mim, pois quando a aula terminava já estava escurecendo e esfriava rápido. Apesar disso, passávamos na sorveteria e mamãe me comprava um cascão com sorvete de chocolate; às vezes era o de duas bolas – de chocolate, evidentemente. Não sei se ela fazia isso todo dia, ou só uma vez na semana, eu sei que aquele cascão que a gente tomava no caminho de volta pra casa ficou deliciosamente marcado na memória.

Lembro também quando passei a andar de ônibus, acho que foi no ensino médio, idos de 2005. Comecei tarde, mas não escapei da avalanche de conselhos maternos, afinal de contas eu era menina, caçula, um ano adiantada na escola, isso é demais para um coração de mãe. Veja se não tem ninguém te seguindo, cuidado com quem sentar ao seu lado no ônibus, use a mochila à frente do corpo, não ponha objetos de valor nos bolsos externos. Mamãe me ensinou desde cedo a ser vigilante e desconfiada.

Outra grande memória é de um dos nossos passeios preferidos: ir ao zoológico de manhã cedo no fim de semana pra… comer pipoca! Andávamos o zôo inteiro, mas o negócio mesmo era se entupir de pipoca. Eu não era do tipo que corria destrambelhada na frente; íamos juntas, passeando. Nossa, como era bom! E tínhamos um macete: nada de comprar nos pipoqueiros perto da entrada, porque cobravam caro. Passávamos umas duas ou três jaulas e começava o banquete. Não havia restrições, pipoca liberada o passeio inteiro. Lembro que, mesmo depois de estar na faculdade, continuávamos passeando no zôo.

Outro passeio maravilhoso era fazer piquenique no Jardim Botânico. Houve uma vez em que estávamos minha mãe, meu irmão e eu comendo quando ouvimos o farfalhar nas folhas… como se uma cobra estivesse rastejando… Nem precisa pensar duas vezes. Recolhemos tudo correndo e saímos dali, haha! Também teve o episódio do cervo (veado) que passou em frente ao carro, mas só minha mãe viu. Nós éramos doidos para ver bichos no Jardim Botânico. Várias vezes vimos micos, mas nunca vi o cervo de novo.

As recordações mais marcantes da minha mãe são as que eu pude contar com a presença e o carinho dela. Vejo os pais de hoje em dia preocupados em suprir seus filhos com tudo o que o dinheiro pode comprar. Os passeios são no shopping, o amor vem junto com um console de videogame, celular, tablet – mesmo que o filho nem tenha 12 anos. Apesar da nossa confortável situação financeira, não tínhamos brinquedos caros, nem roupa ou sapato de marca. Nunca fomos à Disney nas férias, nem em outro período. Nunca ouvi meus pais falando de marcas ou usando marcas.

Nada disso me fez falta. Minha mãe se dedicou inteiramente aos filhos, como muitas dondocas não fazem atualmente. Não suporto ver babás passeando com os filhos das patroas em pleno sábado. Nem sempre minha mãe tinha dinheiro para gastar com a gente em nos nossos passeios, mas até ficar em casa vendo Sessão da Tarde ela fazia ser especial, porque curtia junto comigo e meu irmão, abraçada, fazendo cafuné, rindo, preparando uma comidinha gostosa.

Não há dinheiro no mundo que pague essas lembranças. O melhor da minha infância foi a minha mãe. Não lembro dos presentes que ganhei no Natal ou aniversário, ou de quantos ovos ganhei na Páscoa, mas toda vez que olho pra trás, vejo o exemplo de uma mulher inestimável. Minha mãe me mostrou que o valor está no que somos, não no que temos. Ela me ama mesmo quando a gente briga, porque momentos de desavença não apagam uma vida calcada em carinho e afeto. Minha mãe é minha grande inspiração. Amo você, mãe! Feliz Dia das Mães!

Minha mãe é assim
Envelope com meus trabalhinhos do jardim de infância, uma das lembranças que minha mãe resgatou. Ela é mais linda que no desenho.
Anúncios

Dia de São Jorge

São Jorge
São Jorge sobre minha mesa de trabalho.

Eu andarei vestido e armado com as armas de São Jorge para que meus inimigos tendo pés não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me vejam, e nem em pensamentos eles possam me fazer mal. Armas de fogo o meu corpo não alcançarão, facas e lanças se quebrem sem o meu corpo tocar, cordas e correntes se arrebentem sem o meu corpo amarrar. Jesus Cristo, me proteja e me defenda com o poder se sua santa e divina graça. Virgem de Nazaré, me cubra com seu manto sagrado e divino, protegendo-me em todas as minhas dores e aflições, e Deus, com sua divina misericórdia e grande poder, seja meu defensor contra as maldades e perseguições dos meus inimigos. Glorioso São Jorge, em nome de Deus, estenda-me seu escudo e suas poderosas armas, defendendo-me com sua força e grandeza, e que debaixo das patas de seu fiel ginete meus inimigos fiquem humildes e submissos a vós. Assim seja com o poder de Deus, de Jesus e da falange do Divino Espírito Santo. São Jorge, rogai por nós.

Sou espírita, mas tenho apreço por alguns santos católicos. Em parte, por herança da minha avó materna, sempre muito devota a seus santinhos; em parte, também, porque já alcancei grandes bênçãos na minha vida graças a eles.

Vontade de sumir

Passei uma semana fora para participar de um evento sobre mídias sociais em São Paulo. Nesse tempo, meus pais tiveram de arranjar um jeito de conviver. A palavra é bem essa. Meus pais não vivem juntos, um não faz questão do outro, então eles convivem (a contragosto mútuo) na mesma casa.

Quando voltei a Brasília, no sábado à noite, minha mãe me recebeu bem no aeroporto. Depois de contar dos problemas no voo de volta, perguntei: “e as coisas em casa, como estão?”. Ouvi as reclamações, que poderiam ser resumidas a “ele está insuportável”. Não estava em casa para saber, mas meu pai sabe como incomodar e irritar alguém. Em se tratando da minha mãe, essa capacidade quadruplica.

Eu não havia notado nada de diferente na expressão dela, mas no domingo reparei que alguma coisa mudou ou está mudando. Minha mãe não quis saber os detalhes da viagem, o que fiz ou deixei de fazer em São Paulo, como foi o evento. Ficou na dela. Inicialmente, isso me irritou bastante. Parecia que estava em casa com uma completa estranha. Estranha e mal-humorada. Por diversas vezes perguntei o que estava acontecendo. “Estou de saco cheio, já não aguento mais”, respondia, irritada e de cara amarrada. Só que ela não me dava detalhes.

Minha irritação com essa situação agora se mistura à tristeza. Voltei de viagem e ainda não encontrei a mãe amiga que me deixou no aeroporto chorando porque ia ficar com saudades da filha. Encontrei uma mulher ausente e amargurada que não quer conversa e fica o tempo todo com fones de ouvido. O presente que trouxe de São Paulo para ela foi deixado de lado.

Algumas semanas antes da viagem, descobri que minha mãe havia voltado a fazer terapia. Sinal amarelo. A depressão pode estar voltando. Depois da semana que passei fora, acho que a doença já voltou, mas diferente. Em vez da tristeza, o mau humor. O comportamento de “que se dane, não estou nem aí pra nada” é evidente.

Minha vontade é sumir. Nunca tive uma situação familiar estável. Pais que se odeiam, um cara que acha que manda na casa, uma mulher que simplesmente ignora tudo, uma casa que reflete o descaso. E eu. Sem privacidade, sem espaço, cansada de sempre estar no meio do conflito.

Não vejo luz no fim do túnel. Na verdade, nem fim vejo nesse túnel. Não sei como essa situação vai terminar e isso me dá medo. Não quero resolver nada, não quero desfazer minha mala. Eu quero fugir. Minha vontade é sumir.

Tanto faz se falta tempo

Se Albert Einstein lesse este post, diria que não sei organizar o tempo que tenho. “Falta de métodos”, comentaria. Desculpe, Einstein, mas métodos não são capazes de aumentar as horas do dia, eles apenas ajudam a fazer o tempo render, organizando as atividades e as priorizando.

Nos últimos dois meses, o que eu mais precisava era de tempo. Tempo para fazer o que eu quisesse. Porque todo o tempo que eu tinha era destinado ao que eu precisava fazer. Faculdade (e tudo o que isso engloba: estudo, trabalhos, pesquisas, professores picaretas, etc.), estágio, oficina mecânica, médico. Aliás, foi nas duas semanas antes do Natal, quando tive crises diárias de pressão baixa – chegou a 9 por 4 -, que fiquei refletindo sobre isso.

Como a greve na UnB afetou o calendário letivo, este  semestre, que deveria acabar em dezembro, terminará só no início de fevereiro. Em razão do Natal e do Ano-novo, marcaram um recesso de duas semanas nesse período. Foi nesse intervalo que consegui organizar as ideias para escrever no blog.

Longe de Brasília, estou aproveitando o final de ano no Rio de Janeiro. Nada de praia nem firulas de passagem de ano, porque eu detesto o calor e a sujeira daqui (desculpem, cariocas, mas é verdade) e não acredito em superstições. Bem, ainda tenho uma semana de descanso pela frente. Ou não. Trouxe na mala dois livros da faculdade, porque na primeira semana de janeiro terei de redigir um trabalho de 12 páginas. Além disso, preciso de uma pauta pra mais uma reportagem de rádio. E ainda vou participar do fechamento do jornal-laboratório. Tudo logo depois do recesso.

Eu até sou acostumada com a ralação e a correria, o problema é a falta de reconhecimento. Não me venha com essa de que “fazer um bom trabalho é obrigação”. Quando ninguém reconhece seu esforço, você não se sente parte da equipe, parece que “tanto faz”. Tanto faz que você fique sem almoçar para conseguir uma entrevista para uma reportagenzinha da faculdade que vai ser lida ou ouvida por no máximo cem pessoas. Tanto faz que você gaste dinheiro num livro ruim e desatualizado (porque não tem na biblioteca) só pra fazer o trabalho que a professora pediu (e que ela nem vai ler).

Estou ansiosa pelo fim do semestre. Mal posso esperar para me ver livre dos professores tanto-faz, não ter mais de acordar cedo para aguentar aquelas aulas chatas  – essas, sim, verdadeira perda de tempo. Não vou jogar tudo pro alto, sou adepta do veni, vidi, vici. Enquanto fevereiro não chega, sigo na batalha. ;)

Sobre (i)maturidade

[tweetmeme]Quando a pessoa não alcança a maturidade depois de completar 18 anos, eu penso que ela atinge esse estado quando entra na faculdade, ou quando consegue o primeiro emprego. Normalmente é assim, mas há quem demore mais. Ou que simplesmente nunca chega lá.

Fato é que eu não sei mais lidar com gente imatura. Gente que aos 21, 23 anos de idade não sabe separar o pessoal do profissional, que parece ainda estar vivendo na época de grupinhos e panelinhas de ensino médio. Olha, se você não sabe, esse tempo já passou!

Depois de dois anos na faculdade, a pessoa já deveria saber receber críticas e assumir suas responsabilidades. Não dá pra ter o pensamento raso, fazer picuinhas despropositadamente com outros alunos e achar que vai se dar bem no final. Isso não é novela. E não tente ferrar alguém quando suas informações vierem de fofoquinhas. A lição fundamental do jornalismo é sempre checar a informação. Vale para muitos outros casos também.

Fico impressionada como, aos 19 anos, tenho muito mais discernimento do que esse tipo de gente. Eu deveria ser a infantil, a imatura, mas não é o que acontece. Sou eu quem tem a ‘postura adulta’, que tem mais experiência. Levo meu trabalho a sério, não gosto que pisem na bola comigo e detesto quando não jogam limpo. É assim que encaro a vida.

Quando você for criticado, primeiro de tudo, ouça a crítica diretamente de seu autor. Não acredite em terceiros, pois eles podem reproduzi-la com distorções. Em segundo lugar, avalie o conteúdo da crítica e de quem ela vem. É difícil assumir um erro, mas pior ainda será negá-lo. A análise feita com argumentos é a chave do sucesso. Quando se recebe uma crítica fundamentada, fica mais fácil saber como consertar o que está errado.

Só que, para quem ainda não amadureceu, uma crítica sempre é uma ofensa. E quem criticou é chato, só quer aparecer, não sabe do que está falando. Uma pena quando esse tipo de pessoa quebra a cara ao perceber que outros também enxergam o mesmo problema apontado anteriormente pelo “chato”, não é?

Não estou à procura

Eu não sei desde quando o termo “solteira” virou sinônimo para “disponível”, só sei que isso não se aplica a mim. Estou solteira há quase um ano e não tenho vontade alguma de entrar em um relacionamento. Existe um motivo? Sim, mas não tenho a obrigação de contar, oras. E está aí o problema: ninguém fica satisfeito com um “não quero me envolver no momento”.

Vamos esclarecer uma coisa: isso é uma opção. Simples assim. Eu sou naturalmente egoísta e, pra ajudar, sou exigente. Ou seja, é difícil encontrar um cara que me agrade, pois se existe uma característica que me incomode, não seremos mais do que amigos. Não vou tentar mudá-lo, pois não gostaria que fizessem isso comigo; a pessoa tem que mudar por vontade própria.

Agora, imagine. Olha, eu não vou ficar com você, porque detesto tal coisa em você. Eu sou direta, mas não irracional. Prefiro então dizer “não vai rolar, não estou a fim”. São as palavras mágicas para um homem agir como um babaca, pois ele pensa que não estou falando sério. Ou pior, ele quer um motivo para o meu comportamento. Motivo, não desculpa.

Meu último namoro durou mais de dois anos – muito tempo para uma adolescente – e terminou por circunstâncias “imprevisíveis”. Não gosto de falar sobre isso, porque ainda não superei. Só que sempre chega o cara que quer ser o herói, aquele que diz que vai me fazer esquecer a dor, que vai me ajudar a superar, que “aconteceu a mesma coisa com ele”.

Eu não preciso de heróis. Não quero ser salva, não estou pedindo ajuda. E não aconteceu a mesma coisa com você, imbecil. Se eu digo “não vai rolar nada entre a gente”, não force a barra, eu não sou tão delicada para dar um fora. E não me venha com a ideia estúpida de que, quando uma mulher diz não, ela quer dizer sim. Não é o meu caso. Sempre tento manter os bons modos e não deixar a situação (mais) constrangedora, mas às vezes é preciso encarnar a destruidora de lares e colocar um ponto final na história.

Estou solteira, não estou à procura, não estou na pista pra negócio. Capisce?