Troquei o carro pelo ônibus

Há dois meses, decidi deixar o carro na garagem e ir de ônibus para o trabalho. Não por cidadania ou sustentabilidade, mas porque me recusava a ser extorquida por pragas urbanas conhecidas como “flanelinhas”. Caras que te coagem em estacionamentos públicos com o pretexto de “guardar” seu veículo.

Vários motoristas dão dinheiro para não gastar ainda mais consertando os estragos que essas pestes vão fazer enquanto você estiver longe do seu carro. Eu não sou assim. E, se você nega dinheiro para esses marginais, você fica marcada. Não importa se você fala de um jeito fofo, amigável ou firme que não quer o “serviço”, eles vão te sacanear cedo ou tarde. Pode ser um risco ou arranhão, um amassado, algo quebrado. Podem “deixar” furtarem o interior do seu veículo, ou levá-lo inteiro mesmo. Um colega de trabalho teve a caminhonete furtada em um estacionamento com SEIS flanelinhas – mas nenhum deles viu o furto. Interessante, não?

Todos os estacionamentos da região onde trabalho são dominados por flanelinhas. É uma área na qual, depois das 8h da manhã, não há mais vagas disponíveis. Eles também organizam o estacionamento como querem, fazem filas duplas e triplas, trancam a passagem de quem está nas vagas e você que se dane pra tirar seu carro depois. Não adianta buzinar. Os flanelinhas não ligam, muito menos os motoristas que largaram os veículos lá.

Em dois meses, tentei três estacionamentos diferentes. No último, chegava antes das 7h da manhã, porque ele não tinha mais do que 20 vagas. Detalhe: o trajeto de casa para o trabalho leva cerca de 15 minutos de carro. Toda vez que eu ia embora, sempre havia carros – sim, mais de um – trancando o meu; por vezes perdia de 10 a 20 minutos só para sair do estacionamento. Comecei a refletir como minha saúde estava indo para o brejo devido à raiva diária de ter que enfrentar esses estelionatários. Era uma dose extra de estresse ao chegar para trabalhar e ao ir embora. Precisava acordar muito mais cedo do que o necessário por causa desses vagabundos.

Foi aí que decidi andar de ônibus. Propus a mim mesma fazer o teste por um mês. Na primeira semana, saí de casa em horários variados, para ver quando passava o coletivo mais vazio. Depois disso, foi só adequar a rotina. Várias linhas atendem o trajeto que faço e não preciso andar nem um quilômetro para chegar à parada. Vai fazer três meses que deixei o carro na garagem e me sinto bem melhor. Claro, às vezes encaro um ônibus cheio, gente mal-educada, espaçosa, motorista pedreiro, mas não levo mais de meia hora dentro do coletivo.

Além de sentir menos estresse, reduzi em cerca de 60% os gastos com gasolina e manutenção do carro. Voltei a tomar café da manhã em casa – antes, eu comia no trabalho, para não chegar “tarde” para estacionar. Agora, posso sair de casa mais tarde e ainda chego entre 10 e 15 minutos antes do expediente. Levo o mesmo tempo para voltar pra casa de ônibus e de carro. Até a caminhada curta entre a parada e o prédio do trabalho ou de casa eu vejo como vantagem.

Então, por que eu demorei tanto a usar ônibus? Fiquei pensando sobre isso depois de dois meses usando o transporte coletivo. E a resposta é simples: comodidade. Simplesmente isso. Dentro do meu veículo, estou só, com mais espaço e conforto, escuto minha música, não preciso encarar gente mal-humorada, não balanço pra lá e pra cá, etc. Alguns podem ver como egoísmo, eu chamo de bem-estar. Escolhi abrir mão disso porque, a longo prazo, essa comodidade não me traria benefício algum.

Para mim, usar o transporte público não é o sacrifício que se vê constantemente no noticiário. Mas eu sou exceção. Moro em uma região de Brasília com fácil acesso a transporte, e meu trabalho fica a menos de 30 km da minha residência. Não preciso madrugar na parada esperando se o ônibus vai passar, não pego coletivo lotado, com gente espremida no motor e nas portas, não preciso pegar mais de uma condução para chegar ao destino, não chego em casa horas depois do fim do expediente. Para mim, não é sacrifício. Para a esmagadora maioria da população do Distrito Federal, é uma via-crúcis na ida e na volta.

É por isso que não tenho o direito de reclamar. Evito até “resmungar mentalmente”, porque isso faz mal. Às vezes, compartilho uma situação no Twitter ou comento com colegas, mas é pontual. Uma vez, o cobrador me deu o troco com 10 centavos a menos. Podia ter remoído aquilo por um bom tempo, mas só percebi quando havia chegado em casa. Ele me pagou 1 real de troco em moedas de dez centavos. Joguei-as em um bolsinho e só conferi em casa. Em vez de dez, apenas 9 moedas. Fazer o quê naquela hora? Exatamente: nada. Ou ele foi sacana, e aí azar o dele, pois R$ 0,10 não me faz mais pobre, ou ele já recebeu a menos, também não notou e me deu (não há a opção de ter perdido a moeda, o bolsinho é seguro, rs). Não tive raiva alguma, só ficou a lição de conferir o troco na hora que receber, mesmo que o ônibus esteja chacoalhando, mesmo que tenha gente atrás.

E vida que segue. De ônibus! :)

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Cinto de segurança em ônibus

Eu nunca entendi por que os ônibus não têm cintos de segurança para os passageiros. Toda vez que pego um busão, fico imaginando que, se o motorista frear bruscamente, vou bater com o meu rosto no encosto da frente, quebrar os ossos da face, perder uns dentes… É, é paranoia. Ou não. Nos dois últimos acidentes de ônibus com vítimas aqui no DF, eu ouvi o mesmo depoimento: pessoas caindo umas sobre as outras, pessoas sendo atiradas contra os vidros, contra os bancos, etc. Ah, peraí, não é possível! Um monte de gente saindo arrebentada e ninguém fala nada?

Fui pesquisar quais são os itens obrigatórios de um veículo, pois eu pensava que cinto de segurança era item obrigatório em todos os automotores. Encontrei a Resolução nº 14/98 do Contran (Conselho Nacional de Trânsito) e quase capotei (!) quando li o inciso IV do artigo 2º: não se exigirá cinto de segurança para os veículos destinados ao transporte de passageiros, em percurso que seja permitido viajar em pé.

Qual é a explicação lógica pra isso? Como pode um trambolhão daqueles circular sem o mínimo de segurança para seus passageiros – e isso estar dentro da lei?

Sério, não entendo mesmo. Eu já perdi as contas de quantas vezes entrei em ônibus cujos motoristas passam de 80Km/h em vias com velocidade máxima de 60Km/h. Não adianta colocar barreira eletrônica; o cara reduz para não ser multado, mas em seguida desce a lenha de novo no acelerador. E quem se ferra nessa é sempre o usuário de transporte público; transporte insuficiente, velho e inseguro.

Você já parou pra pensar nisso? Você também tem medo? O que podemos fazer?